TV TEM mostra esquema da ‘Máfia dos Semáforos’ na região de Rio Preto

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Homem com placa vendendo pano de chão em cruzamento de Rio Preto (Foto: Reprodução/TV TEM)

Equipe da TV TEM descobriu que cruzamentos com semáforos são ‘loteados’; valor é cobrado para vendedores ambulantes. Prefeitura de Rio Preto diz que fiscalização é atuante. Em Araçatuba, venda nos semáforos é proibida.

A equipe de jornalismo da TV TEM descobriu durante uma reportagem um esquema de “loteamento” de esquinas e cruzamentos para a venda irregular na região de São José do Rio Preto (SP).

Vendedores ambulantes que oferecem panos de chão nos semáforos estariam sendo explorados por um morador de Rio Preto na “Máfia dos Semáforos”. Durante um mês, um jornalista da TV TEM descobriu que os vendedores pagam para trabalhar na rua, uma área pública.

O homem que diz fazer o “loteamento” desses pontos em várias cidades da região fica em Rio Preto. A prefeitura de Rio Preto diz que a fiscalização é atuante e que se alguém for identificado, é notificado.

TV TEM mostra esquema de exploração de pessoas que trabalham nos semáforos vendendo panos
TV TEM mostra esquema de exploração de pessoas que trabalham nos semáforos vendendo panos

Cada um dos vendedores tem um ponto e esses locais têm um custo para os ambulantes, que na maioria das vezes são pessoas desempregadas e que passam por dificuldades financeiras.

A equipe de jornalismo encontrou na esquina da Avenida Bady Bassitt, uma das mais movimentadas de Rio Preto, o homem que agencia pessoas para trabalhar nos cruzamentos.

Sem saber que estava sendo filmado, o homem que se identificou como Vagner conta como funciona o esquema e cita até ameaça a quem não aceita as regras da “Máfia dos Semáforos.

Em uma coversa gravada, o homem chega a dizer que se alguém tentar vender sem pagar, pode sofrer agressões. “Nós te quebra no pau (sic) e aí a fiscalização vem logo em seguida em você. Cada um aqui respeita o ponto do outro.” (Confira a transcrição da conversa abaixo.)

Os ambulantes falam sobre a fiscalização que a prefeitura faz e a orientação passada por Vagner é não enfrentar os fiscais.

Em outra situação, a equipe de reportagem da TV TEM procurou Vagner em um dos pontos e se apresentou a ele. Questionado, ele negou que faça agenciamento dos vendedores e que apenas vende os produtos para os ambulantes.

“São pessoas que não tinham serviço, eles compram o pano de mim e vendem durante o dia. Eles compram e revendem. O horário quem faz é o ambulante. Se quiser trabalhar duas horas ele trabalhar duas horas”, afirma.

Fiscalização

A prefeitura fez uma fiscalização no último mês justamente por causa dessas acusações de agenciamento nos cruzamentos da cidade.

Há menos de um mês, um vídeo que circulou pelas redes sociais levantou uma polêmica sobre a fiscalização da prefeitura.

TV TEM mostra esquema de exploração de pessoas que trabalham nos semáforos vendendo panos
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O vídeo mostra fiscais recolhendo os produtos de um homem que vendia pipoca, água e pano de chão em uma esquina.

A prefeitura na época abriu uma sindicância e constatou que o homem flagrado vendendo produtos no semáforo é conferencista e pastor de igreja e não precisaria estar no local.

A suspeita é que ele faça parte da “Máfia dos Semáforos”, que explora pessoas geralmente semianalfabetas e que não conseguem emprego em outros locais, se sujeitando ao esquema.

Segundo o secretário de Desenvolvimento, José Onofre de Araújo, a fiscalização é atuante e, quem é flagrado, recebe uma notificação.

“Temos regras para esse tipo de atividade. No semáforo é muito complicado fazer esse comércio devido a insalubridade no local. Pode ser atropelado, praticar a distração dos motoristas. Ele pode comercializar, desde que procure a Secretaria, onde será orientado como proceder, ele vai escolher um local, que será analisado pela Secretaria de Trânsito”, afirma o secretário.

A prefeitura de Araçatuba, em nota, disse que não pode ter comércio de ambulante nas ruas e que vai aumentar a fiscalização.

Homem que diz ser dono dos pontos paga 25% da venda aos ambulantes (Foto: Reprodução/TV TEM)
Homem que diz ser dono dos pontos paga 25% da venda aos ambulantes (Foto: Reprodução/TV TEM)

Confira a conversa transcrita abaixo.

Produtor: Como que é? Cada um tem um ponto?

Agenciador: Se você vier trabalhar aqui (por fora), você não trabalha.

Produtor: Por quê?

Agenciador: Nós te quebra no pau (sic) e aí a fiscalização vem logo em seguida em você. Cada um aqui respeita o ponto do outro. Eu tenho oito pontos.

Produtor: Mas você paga por isso?

Agenciador: Eu pago nada, mais ou menos.

O produtor se mostra interessado e diz que tem um parente querendo trabalhar como vendedor de panos nos semáforos.

Agenciador: Eu tenho uma vaga no ponto que é o melhor ponto para vender, só que é o pior para trabalhar.

Produtor: Qual é?

Agenciador: É a rampa da [Avenida Alberto] Andaló, ao lado do MC’Donalds. Aquela rampa é complicada, ela é subida, tem sol, só que o cara que trabalhou ali para mim por último o mandei para Araçatuba, está morando lá.

Produtor: Lá você também tem ponto?

Agenciador: Tem.

Um vendedor que conversou com o produtor confirma o que foi dito. Vagner não agencia vendedores ambulantes só em Rio Preto, mas também para Araçatuba e Presidente Prudente.

Vendedor: Tem pessoal que foi viajar para fora aí, tem um pessoal que está indo para Prudente e outro pessoal para Araçatuba.

Produtor: Ele que faz tudo isso?

Vendedor: É.

Produtor: Ele que chama o pessoal?

Vendedor: É.

Em Rio Preto, Vagner diz que vem recrutando cada vez mais pessoas, porque embora seja difícil o trabalho, o negócio é lucrativo.

Agenciador: É um servicinho pesado. Só que é o seguinte, é um serviço pesado, se ele quiser trabalhar, a partir de segunda-feira ele vem aqui às 8h.

Produtor: Ah, é das 8h a que horas?

Agenciador: Ele faz o salário dele mesmo, tem gente que termina 3h da tarde e me liga dizendo que já acabou, tem gente que fica até 6h.

Produtor: Quanto de material que sai por dia?

Agenciador: Isso depende do dia, alguns vendem 30 kits por dia, mas a maioria, o normal é de 12 a 16 kits.

Produtor: E você paga quanto?

Agenciador: 25%, terminou o dia eu já pego.

Apesar de ser uma via pública, Vagner diz que outras pessoas não podem vender nos pontos que ele considera ser dono.

Produtor: E se outro quiser vender? Como você resolve isso?

Agenciador: Isso aí resolvemos, geralmente a pessoa não fica não.

Produtor: Como você faz?

Agenciador: Isso aí não te importa.