‘Por causa do crack deixei de dar o último abraço no meu pai’, diz publicitário

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Há 10 anos, Helio Tuzi está sem usar crack (Foto: Renata Fernandes/G1)

Recuperado, Helio Tuzi, de Rio Preto, comenta que uso de droga começou aos 14 anos por curiosidade e para se sentir ‘enturmado’.

Durante 13 anos, o publicitário Helio Tuzi, de São José do Rio Preto (SP), conta que foi usuário de crack. Ele está recuperado há quase 10 anos e afirma que entre as perdas causadas pela droga a pior foi não dar adeus a seu pai. “Por causa do crack deixei de dar o último abraço no meu pai”, afirma.

Tuzi conta que no dia do aniversário de 59 anos de seu pai, 27 de setembro de 2007, toda a família foi para um pesqueiro, mas como ele tinha que trabalhar – era fotógrafo na época – iria depois. “Lembro que meu pai disse que faria o que eu quisesse para o almoço, mas que o trabalho tinha de vir em primeiro lugar. Após fotografar fui para casa e pensei: ‘Vou usar só um pouco e depois vou para o pesqueiro’, mas não consegui ir. Eu ligava para ele e dizia que estava trabalhando, mas na verdade eu estava usando crack. Usei tanto que não tive condições de ir. Uma semana depois meu pai morreu”, diz.

Conhecido como Helinho, o publicitário, que hoje trabalha como missionário, diz que estava com peso na consciência por não ter ido ao pesqueiro, por isso passou a semana sem falar com o pai.

“Queria esperar passar minha vergonha, mas não deu tempo. Mal ele sabia o que eu estava fazendo naquele dia, mas mal mesmo, sabia eu que ele sofreria um acidente. Foi quando percebi que eu não conseguiria parar sozinho e pedi para minha mãe me internar”, conta.

Apesar do longo período como usuário, ele nunca teve “aparência de um usuário de crack”. “Nunca fui magrelo ou tive aparência de quem fosse usuário, pelo contrário. Dos 17 aos 30 anos, usava umas três vezes por semana. No último ano, antes de ser internado, é que usei com mais frequência”, diz.

A história de Tuzi não é tão diferente da de muitos usuários, Ele comenta que só quem vivencia o uso do crack sabe o quão prejudicial ele é para a família. Tuzi alerta os pais sobre o cuidado que devem ter com os filhos, já que começou a usar drogas muito cedo por curiosidade e para se sentir enturmado.

“Meus pais se sentiam tranquilos, afinal eu estudava na melhor escola particular da cidade e convivia com jovens de classe média alta, o que não levantava suspeitas. O problema é que a droga está em todo lugar, em todas as classes e faixas etárias.”

O começo

Aos 40 anos, Tuzi lembra que começou a usar maconha com 14 anos com os amigos. Aos 16 anos, comenta que a maconha já não era suficiente e veio a cocaína. Com o tempo, segundo Tuzi, vieram LSD, ecstasy, chá de cogumelo e crack. “A gente não acha que está viciado, pensa que só quem é fraco cai nessa. Hoje sei que é algo espiritual e só Jesus é capaz de nos libertar, mas na época não queria ser diferente dos meus amigos, queria ficar enturmado, mas o que era usado uma vez por mês passa ser consumido todo dia e logo, toda hora.”

Ele reconhece que o prazer do crack é efêmero, mas a depressão causada após o uso é bem duradoura.

“São 15 segundos de um prazer inexplicável. Se em um orgasmo a pessoa tem 100% de prazer, com o crack essa porcentagem vai a 1000%, mas o desespero pela falta dele vem na mesma proporção”, ressalta.

Christiane Viudes Tuzi está casada com Helio Tuzi há um ano (Foto: Renata Fernandes/G1)
Christiane Viudes Tuzi está casada com Helio Tuzi há um ano (Foto: Renata Fernandes/G1)

Tuzi ficou nove meses internado em uma comunidade de São Carlos (SP) e diz que às vezes sonhava com a droga. “Não tive muitos sintomas de abstinência, mas percebi que vivia em uma escravidão por causa das drogas.”

Depois de sair da clínica, ele ficou sem usar drogas por dois anos. “Tive uma recaída, usei só uma vez, mas percebi que voltaria e pedi para ser internado de novo. Fiquei seis meses na clínica porque comecei a trabalhar lá.”

Entrega

Casado há um ano com Christiane Viudes Tuzi, de 39 anos, os dois trabalham na recuperação de usuários. “A gente desenvolveu um trabalho durante três anos em Uchoa, em que mais de 150 crianças foram transformadas. Jesus nos usa como instrumento”, diz.

Ele afirma que para se livrar das drogas, em especial do crack, foi preciso se apoiar na fé. “Sou um homem transformado e restituído. Tenho paz interior, mas o crack nos tira a moral, porque mesmo sem usá-lo há 10 anos muita gente quando houve a palavra crack, já lembra de mim.”

Christiane diz que é preciso alertar os pais sobre a importância deles falarem sobre drogas com os filhos.

“Muitos jovens não têm consciência do quanto o prazer da droga é momentâneo e mortal. É um prazer que leva à destruição”, afirma.

Para Helinho, a lição que ficou foi a de que precisou passar por todo o sofrimento causado pelas drogas para ter autoridade para ajudar outras pessoas. “Sou perseverante e acredito no poder da oração. Tem um provérbio que é muito verdadeiro: ‘O inteligente aprende com os próprios erros, mas o sábio aprende com o erro dos outros’ e é isso o que falo, porque hoje sei que só Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Esta é a lição que aprendi e vivencio todos os dias.”

Helio Tuzi trabalha como missionário na recuperação de usuários de drogas (Foto: Arquivo Pessoal)
Helio Tuzi trabalha como missionário na recuperação de usuários de drogas (Foto: Arquivo Pessoal)