Opinião: Santos pode, sim, sonhar com voos maiores, desde que adquira regularidade

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Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/SFC

Na virada sobre o Cruzeiro no Mineirão, com derrota nos pênaltis após decisão polêmica da arbitragem, Peixe volta a mostrar brio, mas ainda abusa dos erros; recuperação passa por Cuca

Ninguém gosta de ser eliminado, claro, mas se há uma boa forma de sair de um torneio é com a cabeça erguida após uma vitória fora de casa, com derrota só nos pênaltis e podendo colocar a culpa na arbitragem.

No Mineirão lotado, o Santos venceu o Cruzeiro no tempo normal ( 2 a 1) mais na raça do que na técnica e poderia ter conquistado a classificação para as semifinais da Copa do Brasil se o árbitro Rodolpho Toski não tivesse encerrado o jogo antes do tempo estipulado, quebrando uma chance real de gol com Gabriel em contra-ataque. Nos pênaltis, o próprio Cuca admitiu que o time estava abalado pela decisão da arbitragem. Acabou perdendo por 3 a 0.

No geral, não foi uma atuação boa do Santos. Tecnicamente, o time ainda deixa muito a desejar, principalmente no setor de meio-campo. Mas, mais uma vez, os jogadores mostraram brio, garra, vontade de superar as próprias limitações, como já haviam mostrado nos empates em 1 a 1 com Corinthians e Flamengo no Brasileirão. Se jogassem sempre assim, o Santos não estaria na zona do rebaixamento. Mas é impossível jogar sempre assim, no volume máximo de intensidade – não dá. Há formas muito mais inteligentes – e menos desgastantes – de se jogar futebol.

O mais importante era o Santos retomar a confiança. Conseguiu com essa vitória no Mineirão, a primeira depois da volta da Copa do Mundo. Falta agora encontrar um padrão de jogo e, principalmente, uma regularidade. O time ainda oscila demais, técnica e taticamente, principalmente porque Cuca ainda não teve tempo para treinar. Ele sabia da maratona de dois jogos por semana, mas talvez não tenha imaginado que o time demoraria tanto a entregar uma atuação com tanta paixão como foi essa no Mineirão. Os jogos contra Botafogo e Ceará, por exemplo, foram absolutamente lamentáveis.

Cuca reclama com o árbitro Rodolpho Toski; técnico disse na entrevista que decisão da arbitragem desestabilizou o time antes da disputa por pênaltis (Foto:  Daniel Oliveira/Fotoarena/Estadão Conteúdo)
Cuca reclama com o árbitro Rodolpho Toski; técnico disse na entrevista que decisão da arbitragem desestabilizou o time antes da disputa por pênaltis (Foto: Daniel Oliveira/Fotoarena/Estadão Conteúdo)

O jogo em BH

Por 70 minutos, com alguns raros lampejos santistas (como nos últimos cinco do primeiro tempo), só deu Cruzeiro. Aproveitando-se do desespero santista, e de uma atuação desastrosa de todo o setor esquerdo de marcação do Santos, o time mineiro fez um gol com Thiago Neves, mandou mais duas bolas na trave e passou a impressão de que poderia vencer o jogo sem muita dificuldade. Mas foi recuando, recuando, recuando… enfim, o roteiro clássico de uma equipe de Mano Menezes.

Cuca acertou nas duas substituições do segundo tempo (a primeira foi de Gustavo Henrique em Luiz Felipe, machucado, logo no início do jogo). Jean Mota entrou para fortalecer a marcação no setor esquerdo e ajudar na armação. E Daniel Guedes substituiu Renato, muito mal, empurrando Victor Ferraz (bem) para a armação. Méritos do treinador, claro.

Mas é preciso ressaltar que Cuca errou no início. Arthur Gomes parecia sem função, sempre a léguas de onde o jogo estava sendo disputado. Renato e Pituca mal tocavam na bola, envolvidos completamente pelos jogadores de meio-campo do Cruzeiro. E Dodô, com a missão dada por Cuca de marcar Robinho, não se deu conta de que estava sendo puxado pelo cruzeirense para longe de seu setor, abrindo um buraco na esquerda santista. Thiago Neves percebeu e alugou um lote por lá, onde recebia com liberdade e partia para cima de um Gustavo Henrique perdidinho. O zagueiro perdeu todas as disputas com o meia do Cruzeiro. Até no alto Thiago Neves ganhou de Gustavo Henrique, num lance no segundo tempo. Só aos 16 minutos do segundo tempo esse buraco foi corrigido, com a entrada de Jean Mota. Dodô e Gustavo Henrique, enfim, passaram a respirar, menos expostos.

Renato teve atuação ruim, e Rodrygo jogou muito longe do gol no primeiro tempo (Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro)
Renato teve atuação ruim, e Rodrygo jogou muito longe do gol no primeiro tempo (Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro)

Gabriel, verdade seja dita, cresceu nos últimos jogos. Não só pelo gol, mas por estar mais participativo. Já que não consegue fazer a parede como pivô, tem procurado se movimentar para receber entre as linhas do time adversário (zaga e meio). Foi nesse setor que recebeu de Dodô, ajeitou o corpo e mandou um belo chute de longe. Logo no início ele já havia iniciado uma boa jogada dessa forma.

Rodrygo, porém, é que talvez tenha jogado na função errada. No primeiro tempo, chegou a aparecer entre os zagueiros santistas, como responsável pela saída de bola, a quilômetros da área adversária. Ninguém discute a vontade do garoto de querer ajudar. Mas ele é mais útil perto do gol, pelas pontas. Foi assim que cruzou para o gol de Bruno Henrique – que continua oscilando uma boa jogada com outra pavorosa.

O que esperar no sábado, contra o Sport

Antes de mais nada, Vila Belmiro cheia. É isso o que o Santos precisa esperar. Sem o apoio do torcedor, não há como manter o ânimo lá em cima. E Cuca sabe como poucos mexer com o brio dos jogadores.

Em campo, por conta do alto desgaste físico da maratona de três jogos como visitante, e com os estrangeiros fora da partida contra o Cruzeiro por não estarem inscritos na Copa do Brasil, é grande a chance de se ver um Santos completamente diferente, com Carlos Sánchez, Bryan Ruiz, Derlis González e mais Eduardo Sasha, recuperado de lesão.

Por que não? São todos jogadores rodados, experientes. O jogo contra o Sport é um confronto direto na luta contra o rebaixamento, mas ainda há um turno inteiro pela frente, e todos esses reforços precisam de ritmo para o jogo mais importante para o santista no ano: a partida de ida contra o Independiente, terça-feira, na Argentina, pelas oitavas de final da Libertadores.

Ao deixar Rodrygo e Bruno Henrique no banco contra o Sport, dando um descanso para os jogadores e passando confiança para Bryan Ruiz e Derlis González, Cuca passaria uma mensagem importante: a de que tem elenco, e não que é dependente de raros lampejos de seus atacantes que têm velocidade e talento, mas ainda carecem de regularidade.

Gustavo Henrique teve atuação pavorosa no Mineirão (Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro)
Gustavo Henrique teve atuação pavorosa no Mineirão (Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro)

E o camisa 9?

Não vem mesmo. A última tentativa foi com Vagner Love. A negociação, aparentemente, ficou para a última hora. Com os turcos do Besiktas literalmente dormindo (por conta do fuso horário), faltou a tal da assinatura com a liberação. “Só isso”. Para quem já perdeu o prazo de inscrição de dois reforços numa competição importante como a Copa do Brasil (Bryan Ruiz e Carlos Sánchez teriam sido muito importantes no Mineirão), perder um jogador por conta do fechamento da janela é apenas estatística – mais uma lambança de uma diretoria rachada desde fevereiro e que nunca, jamais, em hipótese alguma poderia ter aberto mão de Ricardo Oliveira.

A alternativa, agora, é ir atrás de um jogador da Série B (Júnior Brandão, do Atlético-GO, é o mais cotado). Nada mais irônico, já que dois dos principais artilheiros da Segundona PERTENCEM ao Santos: Rafael Longuine e Rodrigão, emprestados a Guarani e Avaí, respectivamente. Não que eles fossem a solução para os problemas do Santos – longe disso! Mas não deixa de ser uma mostra do que esperar de um reforço contratado no desespero da Série B.