Opinião: eliminação traumática nas oitavas da Libertadores é auge de caos administrativo do Santos

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Foto: Divulgação

Episódio faz ruir a gestão de José Carlos Peres, que enfrenta dois pedidos de impeachment

Quando a primeira bomba atirada pela torcida do Santos explodiu perto do banco de reservas do Independiente, aos 35 minutos do segundo tempo, na última terça-feira, o mandato do presidente José Carlos Peres ruiu. A eliminação na Libertadores foi o auge do caos instalado na Vila Belmiro desde janeiro, quando a atual diretoria assumiu a administração.

O capítulo final deve começar a ser escrito no próximo dia 10 de setembro, quando o Conselho Deliberativo se reunirá para discutir os dois pedidos de impeachment contra o presidente – ambos com pareceres favoráveis à destituição de Peres. Aprovados, seguirão para votação dos sócios em assembléia.

Não há mais sustentação para o dirigente.

Peres em entrevista coletiva pouco antes de Santos x Independiente (Foto: Marcos Ribolli)
Peres em entrevista coletiva pouco antes de Santos x Independiente (Foto: Marcos Ribolli)

Peres se sentou na cadeira em 2 de janeiro. Não houve um dia de paz no clube desde então.

Contratado sob a promessa de comandar uma profissionalização no Santos, o executivo Gustavo Vieira de Oliveira durou apenas 45 dias no cargo. Ao sair, expôs a crise interna que culminou no racha entre o presidente e o vice, Orlando Rollo, que não se entendem. E que trabalham para minar um ao outro por trás das cortinas.

Os torcedores que se orgulham da tradição alvinegra de revelar craques, viram, depois, a fábrica dos Meninos da Vila envolvida num escândalo de assédio a um menor. No cargo de coordenador da base, Ricardo Crivelli, o Lica, foi acusado de abusar de um garoto de 13 anos em 2010, quando era olheiro do clube. Ele nega, mas o episódio deixou um buraco.

Lica era tão próximo de Peres que dividia com o presidente a sociedade de uma empresa que agenciava atletas, o que é proibido pelo estatuto do Santos. A Saga Talent estava ativa quando o cartola assumiu, ainda que ele afirme que há anos não realizava negócios pela companhia.

É a base jurídica dos pedidos de impeachment, e há advogados cavando explicações para defender Peres – é possível que com bons fundamentos. Mas impeachments são processos políticos em que argumentos fazem parte do teatro como meros coadjuvantes.

Há abutres sobrevoando a sala da presidência. Mas o presidente do Santos deu combustível para seus opositores.

Essa fogueira atingiu seu ponto mais alto na última semana, quando a Conmebol informou que analisava punir o clube pela escalação irregular de Carlos Sánchez. Ele não podia ter entrado em campo e, mesmo assim, lá estava.

O Santos se escora num sistema que nenhum outro clube leva a sério, nem a própria confederação. Bastava um e-mail, como é padrão entre os rivais, para evitar que o 0 a 0 em Avellaneda se transformasse no 3 a 0 decidido a portas fechadas na sede da Conmebol, o tapetão que colocou o Independiente nas quartas de final.

Cuca se desentende com a polícia ao tentar defender torcedor que invadiu o gramado (Foto: Marcos Ribolli)
Cuca se desentende com a polícia ao tentar defender torcedor que invadiu o gramado (Foto: Marcos Ribolli)

A promessa de recorrer até as últimas instâncias não deve surtir qualquer efeito, nem mesmo político. Ninguém acredita que a derrota será revertida.

Pior: as cenas do Pacaembu, com torcedores invadindo o campo, outros atirando cadeiras em policiais, certamente causarão nova punição.

O Santos, agora, passará o resto do ano em missão inglória. O time, que recentemente frequentou a zona de rebaixamento do Brasileiro, ainda vive a ameaça da degola, algo inédito.

Questionado se havia recebido apoio de outros dirigentes brasileiros enquanto tentava evitar a derrota no tribunal da Conmbeol, Peres disse, pouco antes do jogo no Pacaembu, que ninguém o procurou. É sintomático.

Peres está isolado. Enquanto está.