Mãe conta desafios de criar filho de 1 ano com microcefalia

0
Lorenzo, de 1 ano, com a mãe Patrícia Campassi (Foto: Arquivo pessoal/ Patrícia Campassi)

Diagnóstico de Lorenzo, de Campinas, veio na 30ª semana de gestação.

Criança faz fisioterapia, terapia ocupacional e fono para vencer limitações.

“Ele ri da vida. Ele não conhece o nosso mundo, ele vive o mundo dele, é muito feliz”, diz Patrícia Pereira Campassi, de Campinas (SP), sobre o filho Lorenzo, que tem microcefalia. O primeiro ano de vida do bebê, que fez aniversário no dia 15 de outubro, foi marcado por sorrisos, desafios e superações.
Não é fácil, é um dia após o outro. A maior alegria é ver ele aqui, forte”
Patrícia Campassi, mãe do Lorenzo

“Não é fácil, é um dia após o outro. A maior alegria é ver ele aqui, forte. [Nesse tempo] tivemos algumas perdas de crianças com a mesma condição”, desabafa a mãe.

Diagnóstico
A gravidez de Patrícia corria normalmente até que na 8ª semana, ela teve grosseirão, dor no corpo e coceira. Os sintomas foram tratados pelos médicos, na época, como alergia alimentar, apesar do crescente número de casos de dengue e vírus da zika no país.

Depois disso, ela fez mais dois ultrassons, que não deram nenhum tipo de alteração, mas quando estava na 30ª semana veio o diagnóstico de microcefalia, uma condição neurológica rara em que a cabeça e o cérebro da criança são menores do que os de outras da mesma idade.

Na época, a mãe contou que ficou em choque ao receber a notícia, já que os demais exames estavam dentro dos padrões.

Segundo Patrícia, até esse momento nenhum médico tinha feito uma possível ligação com dengue ou vírus da zika. Apenas depois do nascimento de Lorenzo, durante uma visita a um neuropediatra que a hipótese foi levantada. “Eu estive num neuro, no acompanhamento do meu filho e contei a história e ele falou que hoje tem certeza que foi o zika vírus”, explica.

Lorenzo, que tem microcefalia, completou 1 ano neste mês (Foto: Arquivo pessoal/ Patrícia Campassi)
Lorenzo, que tem microcefalia, fez 1 ano neste mês (Foto: Arquivo pessoal/ Patrícia Campassi) Rotina

Rotina
Segundo a mãe, para enfrentar a limitações impostas pela microcefalia, Lorenzo tem uma agenda repleta de atividades, já que precisa fazer fisioterapia, terapia ocupacional e sessões com uma fonoaudióloga.

“Ele está bem limitado, não senta ainda. Mas, está agora conseguindo manter o pescoço firme”, explica.

No entanto, a mãe ressalta que apesar dos avanços diários no desenvolvimento, é difícil saber que ele dependerá de cadeira de rodas. “Ainda dói ver suas limitações. […] Não é o fim, o amor é a base de tudo. Deus nos deu a honra de cuidar de um anjo dele”, pontua.

E para os cuidados diários com Lorenzo, Patrícia revela que têm uma ajudante muito dedicada: a filha Emanuelly, de 6 anos. “Ela [a irmã] sabe da deficiência e tenta interagir com ele. Ela diz que é médica dele”, conta.

Compartilhar experiências
Patrícia, que foi uma das primeiras mães a falar publicamente sobre a microcefalia, afirma que após o caso ganhar repercussão nacional e ser procurada por outras pessoas na mesma situação, decidiu criar uma página em uma rede social para trocar experiências. Já são mais de 4 mil seguidores.

Para ela, é importante que todos sejam orientados sobre o que é microcefalia e como cuidar dessas crianças. “Muitas pessoas queriam saber do desenvolvimento do Lorenzo. Criei a página para que todos pudessem acompanhar. Fiz várias amizades com mães que vivem a mesma situação. É bom compartilhar os medos”, afirma.

Ajuda?
Após o nascimento de Lorenzo, Patrícia conta que foi procurada diversas vezes pela Prefeitura de Campinas. No entanto, ela afirma que essa ajuda, que seria necessária, nunca chegou.

“A Prefeitura iria me assistir, e simplesmente, nos abandonou. Porque não tenho condições. Ele precisa de uma dieta específica, que eu não consigo manter. Meu marido está desempregado, moramos de aluguel. […] Foi dito que assistiria ele de perto, com qualquer coisa que ele precisasse. A cadeira de rodas fui atrás de doações. Ele precisa de órtese, e também não tenho condições”, desabafa.

A Prefeitura iria me assistir, e simplesmente nos abandonou. Porque não tenho condições”
Patrícia Campassi, mãe do Lorenzo

Sobre a reclamação de Patrícia, a Secretaria de Saúde de Campinas disse que ela deve procurar o centro de saúde mais próximo do bairro onde mora para que seja aberto um prontuário da criança. Depois disso, será marcada uma avaliação para a continuidade do atendimento.

A pasta destacou também que não há fila de espera para órteses e cadeira de rodas no município.

Preconceito
No entanto, um ano depois do nascimento de Lorenzo e do crescimento dos casos de microcefalia no Brasil, Patrícia considera que o país pouco evoluiu no assunto.

“É muito relativo, o país não evolui nada. Passamos por muitos preconceitos, não tem como. Mas existem pessoas boas, que amam verdadeiramente o meu filho e isso que importa. […] Os verdadeiros deficientes somos nós, reclamamos de problemas que são grandes apenas em nossa cabeça. Quero que ele tenha uma vida normal, dentro do mundo dele é claro, mas que seja o mais normal possível”, conclui.

Irmã brinca que é a 'médica' de Lorenzo (Foto: Arquivo pessoal/ Patrícia Campassi)
Irmã brinca que é a ‘médica’ de Lorenzo (Foto: Arquivo pessoal/ Patrícia Campassi)

DEIXE UMA RESPOSTA