Falta de recursos e de tempo: especialistas debatem desafios no atendimento humanizado contra o câncer

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Especialistas debatem atendimento humanizado na luta contra o câncer — Foto: Tatiana Regadas/G1

Especialistas debatem como melhorar relação médico-paciente. ‘Temos limitações em um hospital público, mas podemos sempre ter um olhar diferente’, diz psico-oncologista.

A medicina avançou muito nos últimos anos, mas os relatos de tratamentos frios e distantes por parte dos médicos são cada vez mais comuns. Na quarta-feira (10), um grupo de especialistas discutiu o tratamento humanizado de paciente com câncer durante um evento em São Paulo.

“Falar em médico humanista é uma redundância, ou deveria ser. A medicina por si só já é humanista, mas o atendimento humanizado está cada vez mais difícil. A formação na faculdade é cada vez mais técnica, voltada para o diagnóstico”, diz o oncologista e presidente do Conselho Científico da Femama, Ricardo Caponero.

Caponero diz ainda que a maior dificuldade deste tipo de tratamento está no Sistema Único de Saúde, onde a falta de recursos e a lotação muitas vezes impede um tratamento mais dedicado.

Merula Steagall, presidente da Associação Brasileira de Linforma e Leucemia (Abrale), ressaltou que apenas com acesso à saúde é que se pode começar a discutir o tratamento humanizado: “Na fila, em um corredor, não é possível dizer que existe um tratamento humanizado. Existem pacientes que desistem do tratamento para não ter que passar pela humilhação da espera, a humilhação de ter que lutar pelo mínimo”.

Acolhimento

Mas então como melhorar um pouco o tratamento de quem não pode pagar pelo conforto? A presidente da Sociedade Brasileira de Psico-oncologia, Tatiana Bukstein, acredita que é possível melhorar a qualidade de tratamento mesmo no SUS.

“Temos limitações nos hospitais públicos, mas dentro das limitações a gente pode fazer a diferença. Se temos limitações no tratamento, o primeiro passo é acolher o paciente. Se o paciente se sente acolhido, ele passa a confiar no médico. E isso é um aliado porque o médico é a primeira referência dele no tratamento”, diz.

Inclusão da família

Ainda segundo Tatiana, quando o assunto é o câncer é preciso incluir a família. Tatiana diz que uma pessoa doente muda a estrutura de uma família: “Eles têm os mesmos medos e angústias (que o paciente), não sabem como lidar e precisam de orientação e acolhimento. Quanto mais segura a família estiver, mais seguro fica o paciente”, explica.

A psicóloga explica ainda que os pacientes com câncer têm angústias e medos muito próprios da doença e por isso é preciso um olhar acolhedor dos médicos em relação a isso: “Qualquer pessoa que houve a palavra câncer já associa ao medo da morte, que é o que chamamos de luto antecipatório”.

Quando o câncer é em mulheres, entra em cena a questão da auto-estima. A possível perda dos cabelos é uma questão que deve ser levada em conta ao lidar com as pacientes e como isso as afeta. “Como vamos trabalhar para que estas mulheres continuem se sentindo poderosas? Seja de peruca, careca, lenço… a gente sabe o quanto é importante a construção da auto-imagem.”, diz Tatiana.

Ela também ressalta a importância de dar valor a dor de cada um e um tratamento individualizado: “Cada doente tem uma dor. A gente tem que respeitar e acolher o sofrimento que cada um tem. Por mais que a gente tenha diretrizes básica do atendimento humanizado, existem questões individuais de cada um. Lidar com essas questões é muito importante porque as pessoas não são números ou código de barras”.

Correndo atrás

O chamado tratamento humanizado muitas vezes se apresenta em pequenas coisas da convivência entre médico e paciente. A youtuber Jussara Del Moral, há 9 anos em tratamento de um câncer metastático e dona do canal Supervivente, diz que algo simples como se sentir apoiado pelo seu médico pode fazer a diferença.

“Depois de um cirurgião dizer que não operaria meu tumor, que era só empurrar com a barriga, meu oncologista ligou para ele falando que tinha decidido pela operação. Eu considero que isso salvou a minha vida”, lembra ela.

Jussara acredita ainda que é importante falar sobre o tratamento humanizado para que mais pacientes saibam que podem exigir um comportamento melhor dos médicos: “Eu não tive a humanização que eu gostaria de ter tido. Eu tenho plano de saúde e fico meia hora no consultório porque eu sou chata”.

“É uma conquista. Eu espero e luto muito, mas tem gente que não faz isso porque não sabe como fazer”, diz Jussara Del Moral.

Ela lembra que os pacientes com câncer costumam fazer tratamentos longos e debilitantes e que até a atmosfera do lugar pode contribuir para um ambiente de mais acolhimento.

“Os ambientes de trabalho nos hospitais são muito contaminados pelo estresse. Nem sempre aquele funcionário está em um dia bom, mas para um paciente que tem câncer e frequenta o hospital no mínimo duas vezes por semana é muito difícil você chega em um lugar que já tem aquela carga pesada. A gente quer ter esperança, quer chegar em um lugar e pensar: ‘estão cuidando de mim'”, diz.

Tatiana ressalta também a importância de redes de apoio entre pacientes e do valor de pacientes bem informados: “Já temos estudos atualmente que mostram a importância do tratamento humanizado”

“O nosso papel é esse também: mostrar que isso existe, tem que existir e que o paciente tem direito”- Tatiana Bukstein, presidente da Sociedade Brasileira de Psico-oncologia