Em cinco anos, Prefeitura de Salto retirou 200 toneladas de lixo do Rio Tietê

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Lixo invadiu Parque de Lavras em Salto — Foto: Anderson Cerejo/TV TEM

 

G1 Jundiaí/Sorocaba

O problema do “mar de lixo” no Rio Tietê, no trecho que passa por Salto (SP), tem provocado uma força-tarefa para agentes da cidade. Segundo a prefeitura, 200 toneladas de objetos e material reciclável foram retiradas do rio em cinco anos.

O G1 e a TV TEM vêm acompanhando a situação na cidade nos últimos anos. No domingo (17), o trecho do rio em Salto amanheceu coberto por lixo e material reciclável depois de uma forte chuva na capital paulista, na noite de sexta-feira (15) e no sábado (16).

O lixo fica represado em uma usina desativada que faz parte do Memorial do Rio Tietê, ponto turístico que recebe muito visitantes para ver as quedas que há no local. Segundo ambientalistas, depois da grande São Paulo, o trecho que passa por Salto é o mais poluído.
De acordo com o especialista em gestão ambiental e morador de Salto, João de Conti Neto, o rio, que nasce em Salesópolis, na Serra do Mar, e deságua no Rio Paraná, divisa do estado com Mato Grosso do Sul, “ganha” a carga de lixo ao passar pela Grande São Paulo.

Perto de Salto, três usinas controlam a vazão do Tietê. Durante o trajeto, o material acaba acumulando diariamente na barragem da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE), que fica na cidade de Santana de Parnaíba. Outra local onde se acumula lixo é na usina de Rasgão, em Pirapora do Bom Jesus.

João de Conti explica que quando chove forte, o nível do rio sobe e é preciso abrir as comportas e, por isso, o lixo é arrastado até Salto, onde chega a invadir, junto com a água, ruas no entorno do Memorial do Rio Tietê.

“Recolhemos um lixo que não é nosso, mas ele para aqui e precisamos recolher. E isso levanta duas questões, a primeira é que temos um trabalho enorme e a segunda é que utilizamos um espaço no nosso aterro, que já está cheio, para colocar esse lixo que não é nosso”, explica Conti Neto.

É o mesmo discurso do secretário de Meio Ambiente de Salto, que explica que a cidade tem que resolver um problema que vem de fora.

A coordenadora do programa Água, da ONG SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro, explica que a sujeira chega até Salto de duas formas. “Uma é com as enchentes que vêm de ocupações irregulares; e outra é da falta de coleta de lixo em todos os nossos municípios. O índice de coleta de material reciclável nas 34 cidades da região metropolitana de São Paulo ainda é muito baixo.”

Um levantamento feito pela ONG apontam que o Tietê recebe por dia quase 600 toneladas de esgoto e lixo.

Segundo o Conti Neto, completa dizendo que a coleta seletiva na capital paulista é falha. João explica que as fortes chuvas na região metropolitana da cidade fazem com que o lixo reciclável, que fica aguardando a coleta nas calçadas, é levado para os afluentes e, posteriormente, carregado pela água até os rios Tietê e Pinheiros.
“Existe essa falha na coleta seletiva na capital, tanto que a maioria do lixo que recolhemos no trecho do rio que passa em Salto, é reciclável como garrafas pet”, diz o especialista.

As garrafas pet e outros materiais recicláveis não podem mais ser reaproveitados porque foram contaminados. O que os coletores de salto recolhem vai para o aterro municipal.

O secretário de Meio Ambiente de São Paulo Marcos Penedo diz que o lixo sólido é retirado com frequência.

“Esse lixo é rotineiramente limpo. No ano passado, só nas três usinas da Emae,foram recolhidas quase duas toneladas de lixo. O que ocorre é um grande volume. É impossível se reter todo o volume de lixo que vem junto com toda essa água. Não há sistema que aguente segurar, reter toda essa sujeira.”

A Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado explicou que tem atuado para auxiliar na retirada do lixo e na despoluição das águas do Rio Tietê. De acordo com a secretaria, em 2018, a Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE) recolheu 1,8 tonelada de resíduos acumulados nas usinas hidrelétricas ao longo do rio.

No mesmo período, o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) informou que desassoreou um volume de 500 mil metros cúbicos de resíduos, dos quais 7% correspondem ao lixo retirado do fundo do rio.

Em julho de 2014, equipes da Prefeitura de Salto aproveitaram o período de seca e utilizaram rapel para chegar nas áreas de mais lixo e sujeira no trecho do rio que passa por Salto. Em cinco dias, a operação retirou mais de cinco toneladas de lixo do rio.

A administração municipal informou ainda que a Secretaria de Meio Ambiente realiza o monitoramento do rio no trecho que passa pela cidade e que está se reunindo com os órgãos responsáveis para minimizar a carga de lixo que o trecho de Salto recebe constantemente.

A Prefeitura de São Paulo disse que a poluição do Rio Tietê ocorre por diversos fatores e que a responsabilidade de despoluí-lo é compartilhada por diversos órgãos estaduais e dos municípios cortados pelo seu leito.

A prefeitura disse ainda que a Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb) mantém um convênio com a Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A (EMAE), em que todos os resíduos que ficam retidos nas barragens do Rio Tietê, são coletados e devidamente descartados nos aterros sanitários.

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) informou que, em parceria com a Prefeitura de São Paulo, realiza o programa Córrego Limpo para melhorar a qualidade dos mananciais, rios e córregos. Desde 2007 foram investidos R$ 250 milhões para despoluição e manutenção de córregos.

Ainda de acordo com a Sabesp, com o Projeto Tietê, o trecho do rio considerado ‘morto’ diminuiu 74%, de 530 km para 137 km. De acordo com o relatório divulgado pela Fundação SOS Mata Atlântica em setembro de 2018, a mancha de poluição atual do rio Tietê é de 122 km e se estende de Itaquaquecetuba, na região metropolitana, a Cabreúva, no interior de São Paulo.

Segundo a companhia, existe um acordo entre a Amlurb e a Sabesp que trata o chorume originado dos resíduos orgânicos coletados e retorna como água de reuso para limpeza de calçadões e feiras livres. O lodo gerado nesse tratamento é encaminhado para devido o tratamento no aterro sanitário.

Além do lixo…

Outra preocupação dos especialistas é a espuma branca que, frequentemente, aparece cobrindo o Rio Tietê na cidade de Salto. A última vez que isso aconteceu foi em setembro de 2018.

De acordo com informações da ONG SOS Mata Atlântica, a falta de chuva na região na época do acontecimento, pode ter sido um dos motivos para o aparecimento da espuma. Em outras ocasiões, a espuma invadiu ruas e causou uma série de transtornos, como o forte odor que incomoda os moradores.

Em fevereiro de 2018, em uma situação parecida, a Sabesp afirmou que a espuma é resultado do fósforo presente nos produtos industriais, como detergentes e similares, e que precisa de oxigênio para degradar na água.

A formação de espumas, que ocorre frequentemente no Rio Tietê ao longo das cidades de Santana de Parnaíba, Salto e Pirapora do Bom Jesus, está relacionada também à baixa vazão da água e presença de esgoto doméstico não tratado, o que dificulta a decomposição de detergentes.

A solução, segundo especialistas, seria a implantação de sistemas adequados de esgotamento sanitário, incluindo a coleta, afastamento, tratamento e disposição final dos esgotos.

Outra situação registrada nos últimos anos em Salto foi a cor da água. Em novembro de 2014, internautas enviaram fotos e vídeos mostrando que a água estava preta no rio que passa pela cidade.

Segundo ambientalistas, na época, o rio ficou com cor escura durante o dia e à tarde em um trecho de 100 km. A “cachoeira preta” provocou a morte de 40 toneladas de peixes, que foram retirados do córrego do Ajudante, um afluente que deságua no rio Tietê. Um ano depois, a água do rio Tietê voltou a escurecer.

A água voltou a ficar escura em agosto e em outubro de 2018. Na época, João de Conti Neto explicou que a mudança na cor da água pode ter sido provocada por chuvas fortes. O aumento na água pode ter revirado o material depositado no fundo do rio ou trazido resíduos da capital paulista.