Adoção na passarela: é justo?

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Jairo Garcia Pereira é delegado de polícia Foto/BDRP

Na terça feira (21), a Associação Mato-grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção (AMPARA), em parceria com a OAB-MT, realizou um desfile com crianças e adolescentes, entre 4 e 17 anos de idade que precisam ser adotadas. A “Adoção na Passarela” funciona assim: crianças e adolescentes na fila da adoção desfilam em uma passarela do Shopping Pantanal, em Cuiabá, para que o público em geral se sinta tocado e as adotem. “Será uma noite para os pretendentes – pessoas que estão aptas a adotar – poderem conhecer as crianças, a população em geral poderá ter mais informações sobre adoção e as crianças em si terão um dia diferenciado em que elas irão se produzir, cabelo, roupa e maquiagem para o desfile. Na última edição, dois adolescentes, um de 14 e o outro de 15, foram adotados”, disse Tatiane de Barros Ramalho, uma das organizadoras. As informações são da revista digital Marie Claire. Rapidamente, o evento viralizou nas redes sociais e recebeu duras críticas. Guilherme Boulos tuitou que se trata de uma “perversidade inacreditável”.

Do ponto de vista ético-filosófico, podemos analisar o tão criticado evento sob dois prismas: o kantiano (em atenção ao filósofo alemão Immanuel Kant), para quem certos princípios jamais podem ser violados, ainda que os resultados sejam benéficos; nesse caso, se as crianças e adolescentes foram tratadas como coisas, como mercadoria que é exposta ao público para venda, ainda que algumas venham a ser adotadas em virtude do evento, isso não seria eticamente correto. Por outro lado, utilitaristas (que radicam o pensamento em Bentham e Mill) sustentam que é preciso saber o que traz mais felicidade a um número maior de pessoas: se a adoção de algumas crianças e adolescentes deixa mais gente feliz do que triste, ainda que, para isso, os candidatos à adoção sejam tratados como mercadoria, a ação está justificada. Grosso modo, é assim que um ocidental julga se uma coisa é justa ou injusta desde o início da era moderna.

Não existe uma resposta correta e “o que é fazer a coisa correta”, é algo que os filósofos discutem desde a época de Sócrates, na Grécia Antiga, discutem mas não chegam a um consenso. Ninguém é dono da verdade. É preciso fazer algo urgente em prol de milhares de crianças e adolescentes que passam anos esperando por uma família. Como esse algo será feito, é outra questão.

Jairo Garcia Pereira é delegado de polícia em Bálsamo e especialista em Direito pela USAL (Espanha)