O que esperar do Santos em 2017: um título grande e bom senso sobre arena

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Com base forte e treinador competente, Peixe pode almejar uma conquista maior do que o Paulistão este ano. Nos bastidores, projeto da nova arena gera discussão

Elenco - Santos (Foto: Ivan Storti/Divulgação SFC)
Elenco do Santos na despedida do Brasileirão: base será mantida (Foto: Ivan Storti/Divulgação SFC)

Nenhum grande paulista entra em 2017 mais pronto do que o Santos. Isso porque, ao contrário de Corinthians, Palmeiras e São Paulo, o Peixe manteve o treinador e a base de um time que se mantém entre os melhores nos últimos dois anos, quando foi vice da Copa do Brasil (2015) e do Brasileirão (2016).

Só isso já o credenciaria como candidato natural a grandes conquistas em 2017. Há ainda a promessa de reforços para fazer sombra a essa ótima base titular, comandada por Renato, Vanderlei, Lucas Lima e Ricardo Oliveira.

Não há perspectiva de desmanche. O presidente Modesto Roma já disse inúmeras vezes que até pode vender “um ou outro jogador”, e parece se programar para isso – basta ver a longa lista de reforços especulados para o lugar que seria de Lucas Lima, cujo contrato se encerrará ao fim de 2017.

A meta, porém, é segurar todo mundo e contratar apenas bons reservas para encorpar um elenco que deu mostras de esgotamento em diversos momentos das últimas duas temporadas, justamente pela falta de peças de reposição de qualidade.

Com isso, Dorival Júnior teria ainda mais chance de levar o Santos a voos mais altos. No Campeonato Paulista, o Peixe ostenta uma incrível série de sete títulos e três vices em 11 anos (só em 2008 não foi campeão ou segundo colocado). Mas onze entre dez torcedores sabem que chegou a hora de conquistar algo maior.

Tornar-se o primeiro brasileiro a ser tetracampeão da Libertadores, claro, é o principal objetivo. Jogadores experientes como Renato (que teve um 2016 impecável) e Ricardo Oliveira guiam um grupo repleto de jovens valores que disputarão pela primeira vez o torneio continental, como Zeca, Vitor Bueno e Thiago Maia.

Estes três, aliás, foram todos promovidos ao time titular por Dorival Júnior, que parece se sentir à vontade no clube da Baixada Santista – já havia sido campeão paulista e da Copa do Brasil em 2010, ano em que Neymar e Ganso se consagraram num time extremamente ofensivo.

Renato, Santos (Foto: Ivan Storti/Santos FC)
Renato, que teve um 2016 impecável, deve jogar ainda mais recuado em 2017 (Foto: Ivan Storti/Santos FC)

O trabalho tático de Dorival é digno de ser ressaltado e gerou cobiça em rivais como o Corinthians, que o procurou (e ouviu “não”) três vezes no ano passado. No Brasileirão, o Santos se mostrou um time com um padrão definido, com muita posse de bola e troca de passes. Acabou como segundo colocado, sua melhor posição desde 2007, com a terceira melhor defesa e o segundo ataque mais positivo.

Dorival vai tentar, na pré-temporada, emplacar de vez o esquema com apenas um zagueiro de origem, algo que já havia feito nos últimos jogos do Brasileirão por conta das lesões de Gustavo Henrique e Luiz Felipe, e também por não ter 100% de confiança no argentino Fabián Noguera. A ideia é ter o versátil Yuri e o veterano Renato na última linha de três defensores – ou de cinco, se contarmos os dois laterais. Assim, o time ganha em qualidade técnica e saída de bola.

A dúvida seria sobre quem seria esse único zagueiro. David Braz terminou 2016 como titular, mas com um futebol muito abaixo do que mostrou em 2015. Luiz Felipe (excelente contratação no último ano) e Gustavo Henrique (formado na base) sofreram graves lesões de joelho e devem ficar fora por todo o primeiro semestre. Assim, em tese, o caminho fica livre para Cleber, contratado recentemente do Hamburgo, da Alemanha.

Do meio pra frente, pouca coisa deve mudar. Dorival ainda quer um bom “atacante de lado”. Se não conseguir, vai manter Vitor Bueno (na direita) e Copete (na esquerda), com Ricardo Oliveira centralizado e Lucas Lima “flutuando”. O camisa 10, aliás, não teve um 2016 tão produtivo quanto 2015 – nas pesquisas de “melhor jogador do Brasileirão”, ficou muito atrás dos líderes.

EXTRACAMPO

O projeto que mais deve dar o que falar nos bastidores do Santos é o da arena multiuso a ser construída numa área compartilhada com a Portuguesa Santista e a Associação Atlética dos Portuários de Santos, a menos de um quilômetro da Vila Belmiro, com capacidade para 27.286 lugares.

Arena Santos  (Foto: Reprodução )
Arena Santos (em amarelo) seria construída atrás da Portuguesa Santista, perto da Vila Belmiro (Foto: Reprodução )

A promessa de Modesto Roma ao Conselho do Santos é de que o clube não gastará um centavo na obra, orçada em R$ 450 milhões – tudo ficaria a cargo de duas empresas interessadas no retorno que teriam com bilheteria de jogos e eventos no local. E é aí que qualquer pessoa de bom senso na Baixada Santista levanta o braço e pergunta: “Como assim dinheiro de bilheteria e eventos?”

Não é de hoje que a Vila Belmiro só reúne mais de 10 mil pessoas em jogos (não decisivos) com ingressos promocionais (a R$ 40, com meia-entrada a R$ 20). As rendas de bilheteria raramente ultrapassam R$ 300 mil por jogo. Na nova arena, por contrato, o Peixe teria 40% da participação societária e 12,5% da bilheteria de jogos e eventos nos cinco primeiros anos, 15% dos seis aos 10, 17% dos 11 aos 15, e 40% a partir dos 20 anos do estádio. Lindo no papel. Mas como imaginar um estádio sempre com mais de 20 mil presentes numa cidade de 400 mil habitantes e que já passou por dias melhores (faz tempo, aliás)?

A região sofre com a recessão econômica, muito por conta da frustração com o projeto do pré-sal. O boom imobiliário, por exemplo, virou um grande mico para as construtoras que investiram pesado e hoje veem apartamentos novos e encalhados. Shows musicais de grande porte? Não são e nunca foram uma realidade em Santos. E aí vem um “fundo americano” (Modesto não revela o nome) disposto a investir R$ 450 milhões numa arena? Num local sem tradição de grandes eventos?

A ideia fica ainda mais estranha quando se vê que a média de público estimada pelas empresas está entre 18 e 19 mil pessoas, com quatro grandes shows por ano, e com ingresso médio custaria R$ 82. Ora, isso é R$ 12 a mais do que o tíquete médio na arena do Palmeiras, que fica numa das regiões mais valorizadas de São Paulo (uma cidade mais rica e com população 30 vezes maior do que Santos). Esperar um tíquete médio de R$ 82 numa arena multiuso em Santos (a 70km da capital) parece uma projeção fora da realidade. Daí o temor: e se esse tal “fundo americano” cair fora no meio do projeto? Quem vai pagar a conta?

Arena - Santos (pra chamada vertical) (Foto: Divulgação/Conexão 3)
Projeto da Arena Santos prevê 18 mil pessoas por jogo e tíquete médio a R$ 82 (Foto: Divulgação/Conexão 3)

Quando se lançou no sonho no casa própria, o Corinthians também planejava não gastar nada. A Arena seria bancada com venda de naming rights, bilheteria, exploração de camarotes e restaurantes. Deu tudo errado, e o clube hoje tem uma dívida bilionária. A história do Corinthians ensina que estádio novo não se paga sozinho.

Alternativa muito mais em conta (e simpática aos torcedores) seria uma reforma da Vila Belmiro nos moldes do que já foi feito, por exemplo, por Liverpool e Athletic Bilbao (e agora também pelo Tottenham e pelo Boca Juniors): com a interdição parcial de setores inteiros e reconstrução no mesmo local – o chamado “retrofit”. Boca Juniors e Nacional do Uruguai, clubes inseridos numa realidade financeira e até geográfica semelhantes à do Santos, também estudam reformas em seus velhos estádios.

Vale lembrar que o Santos também teria sempre o Pacaembu de portas abertas para receber a sua grande torcida na capital. Ou seja: precisa mesmo de uma arena multiuso?

Ah: tem eleição presidencial em dezembro, e Modesto já anunciou que tentará a reeleição. Por tudo o que já fez até agora (redução das dívidas, geração de receitas, elenco mais forte, patrocínio “engatilhado” para janeiro), o atual presidente tem crédito. Mas dificilmente conseguirá convencer a todos de que o projeto da arena é 100% seguro para o clube.

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