Mulheres dão adeus ao alisamento e assumem cachos e o ‘orgulho crespo’

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Avenida Paulista terá neste domingo (7) a 2ª Marcha do Orgulho Crespo.
Transformação estética quer romper preconceitos e padrões de beleza.

Yara Kassandra parou de alisar o cabelo (Foto: Reprodução/Facebook/Yara Kassandra)

Maternidade, letra de música, blog de moda. São diversas as fontes de inspiração para mulheres que desejam abandonar a química e assumir os cabelos crespos. A mudança, entretanto, não é só estética.

Três paulistanas entrevistadas  contam como foi o processo de transformação, após anos alisando os fios por causa do preconceito sofrido na infância e adolescência.

Elas participam, na manhã deste domingo (7), da Segunda Marcha do Orgulho Crespo, na Avenida Paulista, no Centro de São Paulo. Nacional, o movimento usa a questão capilar como mote para quebrar preconceitos e romper padrões de beleza. A primeira marcha aconteceu em julho do ano passado. Conheça as histórias:

‘Era sempre zoada na escola’

Yara alisou o cabelo por cinco anos, e não aguentava mais fazer progressiva (Foto: Arquivo pessoal/Yara Kassandra)Yara alisou o cabelo por cinco anos e diz que “não aguentava mais fazer progressiva” (Foto: Arquivo pessoal/Yara Kassandra)

Yara Kassandra, de 20 anos, do Grajaú, Zona Sul de São Paulo, começou a fazer relaxamento e progressiva nos cabelos aos 11 anos. A motivação: “Era sempre zoada na escola. Para ser mais aceita comecei a alisar”, recorda.

Após cinco anos de química, quis assumir os fios de forma natural. “Não aguentava mais fazer progressiva”. Somado ao cansaço de alisar, havia também o desejo de ter uma identidade que valorizasse suas origens. “E já tinha mais noção, estava me reconhecendo como mulher negra”.

Segundo ela, o processo foi intensificado durante festa em sua escola, no Dia Nacional da Consciência Negra. No calendário oficial, a data é celebrada anualmente em 20 de novembro. “Um professor na escola fazia todo ano. Durante três dias trazia poetas negros, religiões afros, e no final tinha uma festa só com música negra.”

A transição capilar demorou quase um ano. “Eu deixei crescer até um certo ponto e cortei tudo”. Chamado de “big chop”, o corte elimina as partes onde a química está presente e deixa apenas o que há de natural no cabelo.

A reação inicial à mudança radical não foi boa. “Não gostei, eu chorei muito”, lembra.  Ela ainda conta que no dia do corte, se escondeu no banheiro para chorar, porque a mãe não apoiava a decisão de deixar o cabelo natural. “Ela é bem racista com ela mesma”.

O estranhamento foi superado rapidamente. Em menos de 24h Yara já estava feliz com o resultado. “No dia seguinte vi que realmente estava bonito”. O processo a fez perder o temor e inovar virou rotina. “Estou sempre tentando mudar. Já tive black, já fiz trança, já deixei colorido”.

Embora satisfeita com os resultados, ela conta que após assumir o cabelo crespo, enfrentou dificuldade para encontrar emprego, até mesmo em um salão especializado no seu tipo de cabelo.

“Eu fui procurar trabalho num salão afro, e aí a mulher disse que não ia me aceitar porque o cabelo estava natural, e aí tinha que deixar mais mole, relaxar um pouco mais, para deixar cacheado, não crespo”.

“Já era pra ter sido desconstruído essa ideia de que o cabelo crespo é feio”. Para Yara, a marcha que ocorre neste domingo é “boa para mostrar que tem pessoas negras, lindas e maravilhosas com seus cabelos crespos”.

‘Sempre andei de cabelo preso na infância’

A percussionista Cristina Linhares convenceu a irmã de nove anos a não alisar o cabelo (Foto: Arquivo Pessoal/Cristina Linhares)A percussionista Cristina Linhares convenceu a irmã de nove anos a não alisar o cabelo (Foto: Arquivo Pessoal/Cristina Linhares)

A história se repete. Com a percussionista Cristina Linhares, do Itaim Paulista, Zona Leste de São Paulo, o alisamento também foi a solução para evitar o preconceito. Hoje com 19 anos, ela conta que fez a primeira escova progressiva aos 14.

“Na escola sempre tinha uns coleguinhas que ficavam zuando, chamando de arame, pixaim. Por isso sempre andei de cabelo preso na infância”.

Ela chegou a retocar o procedimento uma vez, mas o cabelo alisado não durou mais que um ano. A ideia de voltar ao natural surgiu durante um ensaio de sua banda. “Estávamos tirando a música ‘Olhos Coloridos’, da Sandra de Sá [A música fez sucesso na voz de Sandra de Sá, mas é de autoria do compositor Macau]. Eu me inspirei nessa letra e resolvi assumir meu black power de vez”.

O retorno ao crespo demorou oito meses. “Cheguei a fazer o big chop quando tinha quatro dedos de cabelo natural. Todo mundo ficou ‘nossa, você não fez isso!’. Quem não tem coragem vai aos poucos”, sugere.

Tempos depois, ela viu a irmã de nove anos passando pelos mesmos dilemas que ela viveu na infância. “Ela estava pensando em alisar”, diz.

Para mostrar que manter-se longe da química era uma boa opção, Cristina recorreu às redes sociais. Combinou que postaria uma foto da irmã com o cabelo solto no Facebook e elas aguardariam a repercussão. A irmã topou o desafio, e ao ver sua imagem render muitas curtidas e comentários favoráveis, desistiu do alisamento.

‘Achava lindo, mas não conseguia imaginar em mim’

Luana Gonçalves alisou o cabelo por 9 anos, e a gravidez foi o empurrão que faltava para voltar ao natural (Foto: Arquivo Pessoal/Luana Gonçalves)Luana Gonçalves alisou o cabelo por 9 anos, e a gravidez foi o empurrão que faltava para voltar ao natural (Foto: Arquivo Pessoal/Luana Gonçalves)

Dos 28 anos da monitora de uma Organização Não Governamental (ONG), Luana Gonçalves, nove foram alisando os cabelos – dos 15 aos 24. Após quase uma década de química, queria voltar ao natural. Mas faltava coragem. “Achava lindo nas pessoas mas não conseguia imaginar em mim”.

A gravidez foi o empurrão necessário (ou obrigatório) para encarar a transição capilar. “Tive que parar de usar química, né, e pensei, é a hora!”. Aí começaram as críticas de parentes e amigos. “Você é louca”. “Está relaxada”. “Prefiro você de cabelo liso, não combina com você”. “Como que meu cabelo natural não combina comigo?”, questionava Luana.

Ela afirma que não chegou a fazer o corte mais radical para tirar toda a química, o big chop. “Meu cabelo era grandão, não queria cortar inteiro. Aí demorou bastante. Ia tirando aos pouquinhos”. O processo durou cerca de dois anos.

Quando criança, também vivia com o cabelo preso. “Quase não tenho foto com o cabelo solto. Isso dói um pouquinho”. Com a filha de três anos, Luana faz muitos registros. “Faço questão de tirar muitas fotos dela com o cabelo livre, leve e solto”.

“Tento sempre passar para ela o que não tive. Eu não tinha representatividade, ‘ah, quero ser que nem essa pessoa’. Eu tento passar isso para minha filha, dou bonecas com cabelo cacheado. Ela acha lindo meu cabelo”.

Para as meninas que querem passar pela transição, Luana diz que o processo é muito maior que apenas uma questão estética.

“A gente tem que estudar a nossa história, a nossa matriz africana, e se identificar nela. Primeiramente, se aceitar negro. Tem que procurar na internet sobre cabelo, maquiagem, e sobre todos os elementos da nossa história, nossa bagagem cultural”.

‘Só fui descobrir meu cabelo com 14 anos’

A descoberta de blogueiras fez com que Brenda tivesse representatividade e assumisse o crespo (Foto: Arquivo Pessoal/Brenda Nascimento)A descoberta de blogueiras fez com que Brenda tivesse representatividade e assumisse o crespo (Foto: Arquivo Pessoal/Brenda Nascimento)

Cabelo preso ou com chapinha foram estratégias usadas por Brenda Nascimento, de 18 anos, para sufocar os fios crespos durante toda a infância. “Só ficava solto quando estava molhado. Secou, prendou”.

Moradora do Jardim Santa Teresinha, na Zona Leste de São Paulo, ela demorou mais de dez anos para conhecer o próprio fio. “Só fui descobrir meu cabelo com 14 anos”.

Brenda chegou a pedir ao pai para alisar o cabelo. Antes de investir no procedimento, conheceu a página da blogueira Raysa Nicácio, que ostenta na internet volumosa cabeleira dando dicas de moda. “Falei: ‘nossa, o cabelo dela é igual o meu! Meu cabelo é bonito, eu posso cuidar dele!”

“Antes a gente não tinha tanta referência, hoje a gente tem. Isso é muito importante para as meninas que estão chegando agora”, analisa. “O movimento negro e a marcha do orgulho crespo fazem a gente se redescobrir no meio da sociedade”, completa.

Depois que descobriu referências que a fizeram ver a beleza dos seus cachos, Brenda tenta ser referência onde mora. Já fez trançado, teve black, pintou, e nota como algumas meninas mais novas olham para ela e perguntam como faz para deixar o cabelo assim.

“Fico me sentindo uma estrela. A gente vê como é impactante na vida de uma criança de 9,10 anos, até mais nova”.

Dicas para a transição capilar
O cabeleireiro Almiro Nunes, dono da Clínica dos Cachos, disse que metade das clientes do salão estão passando pelo processo de transição capilar. Veja as dicas do profissional:

– Procure informação. Há muitos grupos em redes sociais, blogs e vídeos sobre o assunto.
– Tenha paciência. Saiba que nem sempre o que você quer é o que vai ter. Cada um tem seu cacho, seu volume, seu meio de convívio.
– Para quem não quiser fazer o big chop, corte aos poucos, de maneira que tenha cabelo suficiente para prender, usar faixas e turbantes, acessórios que ajudam no processo.
– Tente usar produtos higienizadores sem espuma, condicionadores sem silicones, e não use derivados do petróleo nos cachos.

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