A sociedade em ruínas

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O Brasil atravessa um de seus piores e mais complexos momentos, não apenas política e economicamente, mas, principalmente, no aspecto social: Estamos falhando estrondosamente como sociedade.

A truculência dos noticiários, muitas vezes evitados ou diminuídos, retrata o cotidiano das entranhas do país.

Passamos a desenvolver uma espécie de “imunidade” às notícias ruins ou situações chocantes, assimilando-as como se fossem banais ou inerentes à vida em sociedade.

Aos poucos, sem que nos déssemos conta, extinguimos a cordialidade de um simples “bom dia”, até mesmo para o vizinho, e, apesar de vivermos em cidades cada vez mais populosas, nos encontramos cada vez mais isolados.

No futebol, tornou-se regra a realização de grandes jogos com torcida única, pois aparentemente não temos mais condições de nos correlacionarmos com torcedores de times adversários, sem que ocorram graves incidentes ou mortes.

Rebaixamos-nos a tal ponto, que discutimos a validade ou a qualidade de um crime bárbaro como o estupro, condicionando excepcionalidades, de caso a caso. E, enquanto a inócua discussão segue, outra vítima é estuprada (às vezes coletivamente). O que ocorre, em média, a cada 10 minutos. Isto apenas em números oficiais que, obviamente, estão muito longe da realidade.

Já não nos chocamos, genuinamente, ao ver um menino, de apenas 10 anos, ser morto enquanto fugia da polícia após praticar o furto de um veículo. Tendo, inclusive, trocado tiros com a polícia, antes de ser fatalmente atingido na cabeça.

A polícia agiu errado? Aparentemente não. Afinal, no estrito cumprimento do dever legal foi recebida a tiros.

Mas a questão fundamental é:

– Como permitimos que isso acontecesse?

O caso não é único, há uma geração inteira de outros meninos como esse por aí. Inclusive, havia outro com ele no próprio carro furtado. Qual será o destino deste menino?

Devemos nos lembrar que toda forma de fomento à maldade, em seu sentido literal, só existe por conta da aceitação indireta da própria sociedade, que não a repele adequadamente tornando-a cada vez mais visceral e horrenda.

As indecentes políticas públicas de rebaixamento educacional, só servem para gerar indivíduos bestializados ou eternamente dependentes de sistemas governamentais corruptos, constituindo-se em verdadeiros engessamentos sociais. A prova disto está aí, literalmente, na cara da sociedade brasileira.

Estamos hoje mais interconectados do que nunca, e este magnífico fator tem se tornado mais desagregador do que conciliador.

Talvez pela alta quantidade de informações recebidas e pela impossibilidade de processamento ou de interpretação.

Linchamentos sociais tornaram-se regra, e sempre há um tribunal de exceção a ser instituído em alguma discussão ambientada nas redes sociais. Onde se acusa, condena e executa imediatamente, qualquer tipo de suposto crime ou conduta social.

Ora, para que esperar o longo trâmite da Justiça “se podemos” condenar alguém instantaneamente e destruir sua vida, ali mesmo, confortavelmente, atrás de um teclado?

Alguém se lembra do caso do bebê que teria morrido por overdose de cocaína que estaria na mamadeira preparada pela mãe? Pois é, o devido processo legal demonstrou que não era cocaína, mas remédios que a criança usava habitualmente por conta de graves crises convulsivas, pelas quais fora diversas vezes internada – A mãe sempre foi inocente.

Alguém se importa – realmente – com a violência que essa mãe sofreu na cadeia? A privação de ir ao funeral de sua própria filha?

A verdade é que em algum ponto do tortuoso percurso perdemos o sentido do que é viver em sociedade.

O cenário de recessão escancara ainda mais o grau de involução social que atingimos.

Poucos se indignam com o que de fato merece indignação, o que nos remete a uma importante questão:

– Para onde estamos indo, enquanto sociedade?

Marcelo Aun Bachiega

Advogado

 

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